Eu gosto da cara que as pessoas fazem quando estão sozinhas

Gosto das caras que as pessoas fazem quando passeiam as montras, enquanto esperam pelo almoço no restaurante, enquanto estão à espera do autocarro na paragem de autocarros solitária, enquanto esperam pela sua vez na fila de supermercado e olham para os produtos que a pessoa da frente leva, das caras de quem está no consultório médico ansioso que lhe chamem apesar de não querer saber do resultado dos exames, das caras de comunidade cúmplice daqueles que acorreram abaixo de um toldo de café para se abrigarem da chuva que começou de repente, de quem tocou à campainha e estima o preciso instante em que a porta vai abrir pelo som dos passos de lá de dentro, das caras das pessoas sozinhas enquanto permanecem na esplanada a olhar para o horizonte, muito depois do gelo da bebida ter derretido.

Gosto das caras que as pessoas fazem quando estão sozinhas e fazem caras de «pois» na sua completa expressão de inevitável causalidade, e fazem caras de «tem de ser», e de «se calhar». Caras de «talvez», e «de certeza». De «não só», mas «também». Não há palavras de conjunção ou de disjunção no dicionário que não possam ser expressadas pelo músculo risório, pelo orbicular dos olhos ou por qualquer um dos outros dezasseis músculos da face. Desde que estejam sozinhas.

Gosto das caras que as pessoas fazem quando se riem das memórias reais, e quando se riem das suas memórias imaginadas, memórias que ninguém mais consegue ver senão a réplica risonha de epicentro algures no cérebro.

Gosto das caras que as pessoas fazem antes de produzir aquele som tão difícil de aliterar quando estão chateadas, o «tsc». É que às vezes, depois deste som misterioso feito com vácuo e a língua entre os dentes, as pessoas enchem as bochechas com ar e expelem o ar, para aliviar a tensão. Ou então carregam-se as sobrancelhas, juntam-se os cantos da boca o mais possível num oposto do sorriso, e deixam-se estar nesta figura o maior período de tempo possível até ficar inequivocamente claro no maior número possível de pessoas que há uma razão muito grande para se estar chateado.

Gosto das caras que se fazem para disfarçar as palavras murmuradas que saem de um pensamento pronunciado. E gosto do trautear de uma musiquinha inexistente para fingir que se cantarola e não que se imaginam diálogos.

Gosto do esfregar os olhos para esconder o revirar. Gosto do contrair os lábios e o queixo com muita força para estancar o sorriso que ameaça rasgar num riso, e dos sorrisos soltos para aliviar as imagens engraçadas antes que rebentassem numa risada. E no final, gosto dos suspiros forçados para recompor o ar de sério, se só as imagens engraçadas pudessem sair da cabeça.

Gosto de todas as coisas que saem dos pensamentos para a cara. Das caras de «olhe, vá você», de «que se lixe», de quem solta uma cara de «ó!», de quem diz «ai o disparate». Das caras de quem faz contas de cabeça. Da cara de radar para as pessoas em redor para ver se alguém a apanhou num pensamento maroto da surpresa planeada para o esposo logo à noite quando ele chegar.

Gosto dos acentos que as pessoas trazem em cima dos olhos. Das sobrancelhas em forma de til de quem desconfia do que está a ouvir, das sobrancelhas graves de quem vê algo que não gosta à sua esquerda, e do sinal agudo de quem se espanta com o que vê ali à sua direita. E gosto da cara de acento circunflexo daquele rapaz porque a rapariga dos seus sonhos nunca mais lhe telefonou nem nunca mais o irá fazer. Só que ele não sabe ainda, e só o tempo e a morte da esperança lhe trarão as más notícias. E mesmo da cara de acento grave seguido de acento agudo daquele homem tão mau que as cólicas de que sofre agora não lhe conseguem agravar mais as feições.

Gosto da cara de quem vai na rua e pára, de olhos arregalados de quem está a medir se valerá mesmo a pena voltar para trás para ir buscar o que se esqueceu, dos olhos meio fechados que fitam o chão de quem já não se lembra para onde é que ia, e daqueles olhos tão miudinhos de quem tanta pressa tem que já só consegue ver a maçaneta da porta que vai abrir quando lá chegar alguns minutos atrasados.

Gosto da cara rodada quinze porcento no seu eixo para a esquerda para que possa olhar pelo canto dos olhos a quem pertencem os passos que a seguem na rua, e da cara preparada de quem até lhe saberia bem que alguém se metesse com ele para poder arrear um bom enxerto de porrada em quem quer que viesse.

Gosto da cara dos turistas que olham para cima para apreciar as bonitas janelas das nossas fachadas, e da cara daqueles que por passar lá todos os dias nunca olharam para cima uma única vez.

Gosto da cara de quem acabou de perceber uma coisa, da cara de quem acabou de descobrir uma coisa, e da cara de quem ainda não chegou lá.

Gosto da cara de quem ouve uma conversa alheia e se esforça por conter o humor, a admiração, a revolta e todas as emoções que vêm com as palavras, gosto da cara de quem não se faz rogado por estar à escuta e mesmo à espera de um momento que possa intervir também, e da cara ausente de quem está a perder isto tudo para o seu iPod.

Eu gosto das caras que as pessoas fazem quando estão sozinhas.

Gosto destas todas. E de tantas outras caras incontáveis, gosto também da cara de quem observa, e de quem observa quem observa, sem que lhe ocorra que naquele particular momento haja alguém a observar a cara que ele próprio faz porque pensa que está sozinho.

10 Comentários

Muito giro :) Tb gosto de observar pessoas.

é bom estar doente!imaginação à flor da pele...(hhehehhe) muito interessante este doc. faz-nos pensar...imaginar o que há por trás daquelas caras...

"E gosto da cara de acento circunflexo daquele rapaz porque a rapariga dos seus sonhos nunca mais lhe telefonou nem nunca mais o irá fazer."

Ei! Eu ando sempre com essa cara!

Gosto deste post :)

Vénia, senhor Pinho...

E eu gostei de imaginar a minha cara ao ler este belo e divertido post e de imaginar a tua, ao escrevê-lo. :)

Fiquei a pensar se eu gosto da minha cara quando estou sozinha...

Excelente texto...

: - ) É a minha cara... ao comentar...

Beijos!!!

Obrigada por me teres dado consciencia da minha cara enquanto lia este teu post sobre outras caras que também são minhas.. Neste momento, A minha sorria! Lindo!Parabens

Gosto muito do seu texto, Ricardo. Desapareceu deste espaço virtual? Não quer voltar e escrever mais qualquer coisa? As suas palavras encaixam bem. Imagino-o a olhar o mundo. Eu também gosto de olhar mas gosto mais de estar dentro dele. Lembro-me do Pessoa a dizer "O que penso eu do Mundo? Sei lá o que penso eu do mundo! Se eu adoessesse pensaria nisso".

Veja lá se se decide e vem aqui de novo.

Até breve,então!!!

Já lhe disse que gostei mesmo muito do seu texto e imaginar quem está por detrás de tanta observação. Há umas quantas das suas caras que eu aprecio em especial. Eis alguns exemplos: "... as que as pessoas fazem quando se riem das memórias reais; as que fazem para disfarçar as palavras murmuradas que saem de um pensamento promunciado; de todas as coisas que saem dos pensamentos para a cara; da cara de quem acabou de perceber uma coisa, da cara de quem ainda não chegou lá; E de tantas outras caras incontáveis..."

Não sei se se lembra que há uns anos o DN publicava no suplemento DNA texto assinado por figuras públicas da nossa praça onde elas diziam do que gostavam e não gostavam. Eu fiz esse exercício que lhe mando de seguida.
MANIFESTO
Gosto do calor do sol e do calor do corpo de quem gosto. Gosto de ondas de água quente e do mar zangado de Inverno. Gosto do gosto da neve acabada de cair, do silêncio e do cheiro fresco da montanha. Ainda não gosto das minhas rugas e nunca gostei de ter que decidir. Gosto de saber notícias dos meus amigos. Não gosto de conhecidos nem de couves de Bruxelas. Gosto de falar com estranhos. Gosto muito da minha mãe. Gosta do meu pai e da infância que ele me deu. Gosto das pernas do Figo. Gosto de ser mulher e gosto das mulheres. Gosto do som limpo do piano. Gosto de saber que tenho vontade de dançar. Não gosto de ser a última a saber. Gosto de mim. Não gosto da dor, da minha ou a dos outros. Não gosto de me sentir frágil nem triste. Gosto de ver o dia nascer e de noites de luar. Não gosto mesmo nada de esperar. Gosto de comer figos maduros e do cheiro do meu perfume. Gosto muito que me contem histórias. Gosto de viagens, de viajantes e peregrinos. Não gosto de ter frio. Gosto dos pássaros porque podem voar. Gosto de alguém em especial. Não gosto do mundo desigual. Não gosto que ganhe o mais forte só porque sim. Gosto do sal e da água e gosto de pensar que nunca vão acabar. Gosto dos homens, dos magros, baixos ou altos, loiros, morenos, sem cabelo, tímidos e destemidos, sensíveis, fortes ou frágeis. Acima de tudo, gosto de gostar deles. Gosto de saber que há gente feliz. Não gosto de quem não gosta de quase nada por pouca razão. Não gosto de gente malcriada. Gosto das palavras, quase todas. Das escritas, de preferência. Gosto da palavra Nam e do que ela me faz lembrar. Gosto dos homens que amei. Não gosto de quem só gosta da perfeição. Gosto de procurar a excelência, do corpo e da alma e gosto dos seres imperfeitos. Não gosto de ter coisas. Gosto da Patagónia e do sul do mundo. Não gosto de causar tristeza. Gosto de quem cuida dos outros. Gosto de quem gosta do mundo e das pessoas. Não gosto do que faz o mundo ser cruel. Gosto de quem faz música. Gosto de dizer obrigada e não gosto de quem não gosta de pedir desculpa. Gosto de não esquecer os meus amigos que já partiram e gosto de pensar que estão bem. Gosto do azul e do branco e gosto de saber que as outras cores existem. Gosto de corpos vibrantes, leves e ágeis. Mais que tudo, gosto da vida.

Faço-lhe o mesmo desafio. Escreva do que gosta e do que não gosta.

Volte a escrever, não desista.

Sabes que mais? Eu sempre gostei das palavras e há pouco tempo atrás, quando nada o fazia prever, zanguei-me com elas porque de repente ficaram mudas, sem sentido, sem ouvinte, eram como desenhos mal desenhados e sem expressão. Mas já passou, voltei a elas e estou contente por isso.
Até já.

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Acerca deste artigo

Esta página contém uma entrada por Ricardo José Pinho publicada em março 2, 2006 5:08 PM.

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