Porque o Acordo Ortográfico de 1990 não é bom, e porque não quero nunca que entre em vigor:
Porque a língua escrita não tem de ser um espelho da expressão oral
Muitos portugueses dominam o inglês e o francês e sabem que nestas línguas chega a haver duas consoantes seguidas mudas. E contudo não consta que os países francófonos ou anglófonos façam revisões ortográficas. Porque não actualizam os franceses «disent» para «dise», ou «business» em inglês por «biznes»?
Porque não aproxima os países lusófonos
O afastamento linguístico entre o Brasil e Portugal é cultural. Infelizmente não é pela omissão de letras que se omitem as causas dessa distância. Para mais, o uso das palavras é por vezes inteiramente diverso nos dois países. O que quero dizer é que o que pode tornar um texto de um país difícil de compreensão noutro não é a falta de uma letra, mas o uso de palavras inexistentes num país ou usadas num contexto cultural diferente.
Porque não é universal
Continuam a manter-se as diferenças nas acentuações esdrúxulas do Brasil e as tónicas agudas dos restantes países, como em «económico»/«econômico». Mantêm-se as diferenças tipográficas, como a capitalização dos meses, estações e dias de semanas em Portugal, e a mesma grafia em minúscula no Brasil. Por esse motivo, além das diferenças culturais, continuarão a distinguir-se as edições brasileiras das portuguesas e a sentir-se a necessidade dessas diferentes versões.
Porque afasta países lusófonos
Ao alterar a ortografia em Portugal, afastamo-nos da ortografia dos países africanos de expressão portuguesa que não o ratifiquem, da língua portuguesa da Galiza que não o fará, e da ortografia portuguesa de Macau agora fora da alçada legal de Portugal.
Porque não é útil
Esta revisão não causa uma relação uniforme entre a pronúncia das palavras e a sua ortografia. Pelo contrário, mas só a título de exemplo, existe uma sugestão bastante curiosa, por António Manuel Dias.
Porque altera a pronúncia
Se a revisão serve para ajustar a ortografia à pronúncia, esta tem um efeito no sentido contrário quando elimina forma das palavras compostas por justaposição hifenizadas. «Bem-aventurança» passaria a dividir-se silabicamente por «be.ma.ven.tu.ran.ça». «Pára-quedas», por exemplo, escrever-se-ia «paraquedas» e ler-se-ia por isso de forma diferente.
Porque sai caro
As revisões ortográficas obrigam os portugueses a comprar novos dicionários e prontuários. Os livros estarão todos automaticamente desactualizados, tal como manuais de escola, enciclopédias em papel e suporte digital, processadores de texto, programas de correcção ortográfica, sinalética pública e todo e qualquer suporte de escrita.
Porque as pessoas resistem-no
Se a língua é, como dizem, do povo, deve-se prestar atenção às reacções emocionais dos portugueses sobre esta matéria.
Artigos relacionados: Ainda contra o acordo ortográfico; Abaixo-assinado contra a idiotia; O meu voto não é mais secreto.


Estou inteiramente de acordo com o acordo ortografio.... Há que unifcar a lingua antes que seja tarde!
Vai-me desculpar, mas discordo dos seus argumentos.
Entendo que uma unificação ortográfica do português é uma necessidade e é urgente, pelo que defendo a implementação imediata do Acordo Ortográfico de 1990 em todos os países lusófonos, pelas seguintes razões principais:
- Porque a ortografia portuguesa é de natureza fonológica
O francês e o inglês seguem sistemas ortográficos que dão grande relevância à etimologia, tal como acontecia no português pré-1911, quando se escrevia "orthographia", "phleugma", "pharmacia", "diccionario", "caravella", "estylo" e "prompto" em vez de ortografia, fleuma, farmácia, dicionário caravela, estilo e pronto.
Quando em 1911 se fez a primeira reforma ortográfica em Portugal, a opção passou a ser a de dar uma maior preponderância à fonologia (a maneira como as plavras são pronunciadas) sobre a etimologia (a origem das palavras). Daí que as comparações da ortografia portuguesa devem ser feitas com o espanhol e o italiano (que seguem sistemas gráficos semelhantes ao nosso), e não com o francês e o inglês.
- Porque a situação actual do português é caso único no mundo
O português é a única entre as dez línguas mais faladas do mundo que não tem um código ortográfico comum a todas as suas variantes nacionais (se exceptuarmos o Hindi/Urdu, de resto com larga diferenciação lexical). Esta situação prejudica grandemente a projecção internacional da língua portuguesa, limita o ensino do português como língua estrangeira, coloca empecilhos à adopção da nossa língua nos fóruns internacionais, coloca entraves à circulação de publicações, etc.
- Porque uma ortografia unificada aproximaria os países lusófonos
As normas propostas pelo acordo ortográfico de 1990 vêm eliminar a grande maioria das diferenças entre Portugal e o Brasil, mantendo apenas pontuais grafias duplas que também podem ser encontradas, por exemplo, no inglês e no espanhol, sem que isso constitua obstáculo algum.
O uso de um código de escrita único facilitaria, por exemplo, a reunião de esforços de portugueses a brasileiros na difusão do português e na alfabetização de africanos e timorenses.
O acordo ortográfico prevê também a constituição de um vocabulário comum, nomeadamente técnico e científico, que ajudaria a minimizar as diferenças entre os países lusófonos.
A entrada em vigor do novo acordo será imediata nos países que já o ratificaram (Portugal, Brasil e Cabo Verde), mas a adopção pelos demais será feita logo de seguida pelos restantes países lusófonos. As autoridades da Galiza não consideram que o galego faça parte do português, pelo que seguem uma ortografia diferente da nossa (no entanto, no acordo participou uma delegação de observadores da Galiza). Macau, Goa e as comunidades portuguesas e brasileiras espalhadas pelo mundo adoptarão as novas normas ortográficas, na medida em que estas serão as únicas oficiais.
É possível que muitos continuem a escrever "peremptório" ou "didáctico" quando as normas oficiais já preconizarem "perentório" e "didático", da mesma forma que hoje ainda há gente a escrever "flôr", "práctica" e "assumpção".
- Porque é útil, não altera a pronúncia e não sai necessariamente caro
Ao contrário do que você diz, não é verdade que "não causa uma relação uniforme entre a pronúncia das palavras e a sua ortografia". Nenhuma ortografia é inteiramente fonética, mesmo porque a pronúncia das palavras não é exactamente igual em Lisboa ou no Porto, no Rio de Janeiro ou em Luanda. Mas as novas normas estão muito mais próximas da pronúncia do que as actuais. "Ótimo" não é mais próximo da pronúncia do que "óptimo"? "Ato" não é mais próximo da pronúncia do que "acto"?
É certo que "pára-quedas" passaria a "paraquedas", porque se entende que se perdeu a noção de composição (tal como "girassol" ou "pontapé"). Mas não creio que haja qualquer risco de alteração da pronúncia. Quanto a "bem-aventurança", o hífen seria mantido, pelo que a divisão silábica seria como é actualmente!
Quanto aos custos, há que ter presente que estes processos são graduais e que haveria sempre um período de transição. De qualquer maneira, estamos a falar de alterações em apenas 1,6% do vocabulário usado em Portugal. Não íamos mudar para o alfabeto cirílico... Mas pense nos ganhos. Pense que, tal com o acontece com as espanholas, as editoras portuguesas teriam ao seu dispor um vasto mercado de 200 milhões em vez dos habituais 10 milhões de potenciais compradores das suas edições. Não seria isto uma fantástica oportunidade?
Por fim...
Nós, os portugueses, temos uma tendência -- às vezes até doentia -- para lamentar as oportunidades perdidas do passado. Mas continuamos, hoje mesmo, a descorar o muito que ainda temos de bom... Creio que não exagero se disser que nenhum país do mundo desdenharia perante a possibilidade da língua que ostenta o seu nome ser considerada uma das mais faladas do mundo!
Olhe para a Inglaterra, o que eles ganham pelo facto da sua ser a "lingua franca" por excelência do mundo contemporâneo! Olhe para a Espanha, o que eles se esforçam por integrar continuamente os falarem latino-americanos (ao ponto da Real Academia Española considerar como correctos usos próprios dos hispânicos e que os castelhanos mais puristas sentem repugnância em aceitar...) e como eles se envolvem na expansão do idioma nos Estados Unidos! Olhe para a França, que através da sua política de francofonia, se esforça por travar a decadência do idioma francês, enquanto língua de comunicação transnacional...
Por que razão nós desprezamos esta sorte que temos de ter um idioma de expressão universal? Por que razão caímos nessas armadilha do "orgulhosamente sós"? Se persistirmos nesta política, um dia -- talvez quando já for tarde demais -- vamo-nos arrepender...
Creio que eu não sou quem de opinar se a reforma é ou não conveniente (sobretudo porque ainda há quem nega a lusofonia da Galiza). Mas uma cousa é certa, afasta em muitos casos o português da fala da Galiza, a qual deveria ter-se em conta . Saudações.
Alguém tem o contacto da sede do Movimento Contra o Acordo Ortográfico? Obrigado.
Até onde julgo saber, esse "Movimento Contra o Acordo Ortográfico" foi formado contra a tentativa de acordo ortográfico de 1986 (a tal que previa a eliminação dos acentos nas palavras esdrúxulas: Antonio, em vez de António; fabrica, em vez de fábrica, etc.). Não conheço nenhum movimento contra o acordo de 1990 que, apesar de todos os contratempos, está encaminado para entrar em vigor um dia destes. Mais info: http://pt.wikipedia.org/wiki/Acordo_Ortográfico_de_1990
Eu sou contra o acordo principalmente por alterar a pronúncia das palavras em sua leitura. Lingüiça é diferente de linguiça. güi e gui, assim com qüi e qui são pronunciados de formas diferentes (ao menos aqui no Brasil). Para mim é como ampliar , em certa medida, o problema que temos com o x - que pode ter som de ss, de ch, de z ou de ks (auxílio, enxada, exato e sexo).
E, por favor, não me venham pôr como exemplo as maluquices que se escrevem pela grande rede (kbça, naum, axo).
Não creio que os acentos no Português do Brasil sejam esdrúxulos - ao contrário há uma lógica muito bem definida, baseada na nossa pronúncia.
É isso, sou contra.
Contra o Acordo Ortográfico de 1990
De um modo geral, as posições tomadas a favor ou contra o novo Acordo Ortográfico revelam preocupações extra-linguísticas, preconceitos de ordem vária e posturas políticas mal fundamentadas, mas raramente decorrem de uma reflexão séria sobre a razão de ser e o fundamento da ortografia e a sua importância para a uniformização do entendimento e do uso de um elemento fundamental do nosso património cultural, senão o mais fundamental, que é a língua.
Neste âmbito, ocupam primeiro plano os discursos sobre a aproximação dos países de língua portuguesa, o que constitui um objectivo programático sedutor, mas igualmente uma premissa destinada a afastar qualquer veleidade de contestação e a justificar com uma necessidade política a ratificação deste novo acordo. No entanto, pouca gente saberá que já as primeiras linhas do Acordo Ortográfico de 1945 invocavam precisamente o facto de o Brasil não ter seguido os acordos de 1911 e de 1931 como razão que suscitara a iniciativa da sua redacção e, como sabemos, também este não foi seguido senão por Portugal. Não vejo pois como se pode esperar, hoje em dia, que o novo acordo tenha um destino diferente, dado que o ensino da língua, em qualquer destes países, é muito menos estrito e normativo do que na primeira metade do século XX.
Outro argumento muito comum é o facto de a língua ser apenas uma convenção. Os defensores mais extremistas desta posição chegam a argumentar que "mar" se poderia designar perfeitamente por "depoimento" ou por "talvez", e porque não por "fruto". Esta posição que qualifico de anárquica é perfeitamente falaciosa pois faz tábua rasa de toda a etimologia, de toda a base cultural da língua, e redu-la a um conjunto de sons perfeitamente aleatório. A maior parte das palavras tem um fundamento etimológico ou é derivada de outras palavras já existentes na língua ou em línguas do mesmo universo cultural, ainda que não forçosamente da mesma família. Tal é igualmente, de um modo geral, o caso dos neologismos, excepto quando eles designam realidades que provêm precisamente de outros universos culturais. Mas ainda assim, no contexto da sua língua de proveniência, obedecem igualmente a estas regras.
Para que uma convenção funcione, seja ela qual for, só existem dois requisitos: é que ela seja entendida e aceite por todos. No que respeita à língua portuguesa tal como ela tem evoluido nas últimas décadas, tal não me parece possível. As diferentes evoluções que a língua tem seguido nas várias comunidades que a utilizam revelam precisamente modos distintos de evolução que respondem a diferentes necessidades. Neste sentido, a existência de um Acordo entre vários países parece-me uma posição redutora, contrária à História, e mesmo totalitária, pois pretende impedir a evolução natural da língua e impor um modelo único, como uma espécie de catecismo universal.
O que nos traz ao argumento da necessidade de evolução da língua, aos aforismos (ou dogmas) caros aos linguistas, como o que pretende que a língua é "feita pelos falantes". Se tal é o caso, em Portugal e no Brasil, e nos restantes países de língua portuguesa, falam-se portugueses diferentes, apesar de existir uma base comum. O que se pretende? Criar um português diferente do que se fala em qualquer destes sítios?
A este respeito, é notória no texto do Acordo a existência de inúmeras variantes que consignam as diferenças já existentes entre Portugal e o Brasil, designadamente, na acentuação (uso dos acentos agudo ou circunflexo em certas palavras) . Não se trata, pois, de uma verdadeira uniformização.
A questão da acentuação é, aliás, muito delicada. O Brasil mantinha até agora o uso do trema que Portugal abandonou em 1945. As consequências deste abandono são visíveis, desde então, na alteração da pronúncia de certas palavras em Portugal. Haverá quem ainda leia a palavra "quiquenal" como "qüinqüenal"? Porém, nos últimos anos, embora "frequente" não suscite problemas, é comum ouvir "tranqilo", "eqestre" ou "ubiqidade".
Os acentos contribuiam para facilitar o ensino da língua. A sua supressão obriga à memorização da pronúncia de um grande número de palavras, o que se torna manifestamente difícil no caso das que não são de utilização corrente e conduz, com o tempo, a uma adulteração da pronúncia e à existência de numerosas variantes.
O desaparecimento do "c" antes do "t" também terá consequências fonéticas, pois este abria a vogal que antecede, como em "adjectivo" ou em "facto". O seu desaparecimento no Brasil corresponde à evolução da pronúncia, dado que aí não se pronuncia o "c", mas o seu desaparecimento em Portugal irá provocar essa evolução, o que constitui o fenómeno oposto, e contraria o pressuposto de que a ortografia é que segue a evolução da língua e não o contrário.
Se, como dizem os defensores do Acordo, a ortografia portuguesa é de carácter fonológico, então "for" devia escrever-se "fôr", como "flôr" e "pôr", um "molho" (ramo) de salsa não se deveria escrever como um "môlho" (líquido) de salsa, "freqüente" deveria levar trema (como no Brasil) e nunca se deveria ter abandonado o acento grave nos advérbios em terminados em "mente".
Esta situação faz-me pensar no aparecimento do chamado "latim bárbaro", último reduto dos defensores de uma língua uniformizada, mas já completamente adulterada, modificada e simplificada, na época em que surgiam as novas línguas latinas. A tendência do Português é para evoluir em sentidos diferentes na Europa, em África e no Brasil. Apesar do oportunismo político e do terrorismo intelectual, parece-me completamente disparatado e inglório ir abdicando a pouco e pouco da nossa língua para tentar suster uma evolução ineluctável, e penso também que o nosso futuro no séc. XXI está na Europa, não em África nem na América Latina, tanto em termos culturais como económicos e políticos. É natural e muito benéfico manter laços com os outros países de expressão portuguesa, mas não me parece que este novo Acordo possa trazer benefícios a mais ninguém para além das editoras, a quem será oferecida a oportunidade de substituir todo o património literário português.
Para terminar, existe ainda outra questão que para mim assume maior importância que é a da sintaxe: o Acordo é apenas ortográfico, e não aborda evidentemente esta questão. Mas são quanto a mim as diferenças de sintaxe que, neste momento, mais afastam as "línguas portuguesas", e não está previsto nenhum "Acordo Sintático" entre os vários países. Desde o uso da forma verbal reflexa, passando pelo do "que", dos verbos auxiliares e de todas as preposições, ao dos diversos tempos verbais, as línguas portuguesas têm-se vindo a afastar cada vez mais. A televisão veicula todos os dias, aliás, estas formas de falar que têm vindo a contaminar a língua falada em Portugal. Parece-me que, em vez de um Acordo, o que teremos de fazer dentro em breve é comprar uma colecção de dicionários brasileiros....
A imprensa brasileira tem discutido esse acordo com desdém, sempre ressaltando os fracassos anteriores. Tenho conversado com alguns professores de português amigos meus e todos são contrários a "mais uma" reforma ortográfica. Entre eles -e entre os brasileiros em geral- a abolição do trema figura como "um horror". Há uma evidente má vontade contra esse acordo por aqui -isso, quero dizer, entre os que conhecem o acordo, porque muitos simplesmente o ignoram. Considerando tudo isso, a minha aposta é a de que esse acordo será um retumbante fracasso. Ainda bem.
Contra quem está contra...
Pelo que vejo, o amigo Jorge Silva Marques é tradutor. Assim sendo, em termos profissionais, a fragmentação do português em línguas diferentes (ele fala já em "comprar uma colecção de dicionários brasileiros") ser-lhe-ia muito benéfica. Sempre haverá mais línguas para traduzir... ;-)
Agora a sério, gostaria de comentar algumas passagens da sua mensagem acima:
Diz Jorge Silva Marques: "pouca gente saberá que já as primeiras linhas do Acordo Ortográfico de 1945 invocavam precisamente o facto de o Brasil não ter seguido os acordos de 1911 e de 1931"
Comento eu: É verdade que o Decreto n.º 35.228, de 8 de Dezembro de 1945 faz referência a esses aspectos, mas não da forma como os relata aqui. Em 1911, o que se passou foi que Portugal decidiu unilateralmente simplificar a ortografia, sem consultar ninguém. O que é dito no decreto é que o Brasil não adoptou a reforma que Portugal pôs em prática. Quanto a 1931, chegou-se a acordo, o que aconteceu foi que os vocabulários ortográficos publicados subsequentemente pela Academia das Ciências de Lisboa (em 1940) e pela Academia Brasileira de Letras (em 1943) mantinham grafias diferentes em várias palavras, o que levou à redacção de novo acordo em 1945.
Para evitar os erros passados é que o novo acordo de 1990 preconiza a elaboração de um Vocabulário Ortográfico Comum «tão completo quanto desejável e tão normalizador quanto possível, no que se refere às terminologias científicas e técnicas», antes da entrada em vigor dos termos do acordo.
Diz Jorge Silva Marques: "é notória no texto do Acordo a existência de inúmeras variantes que consignam as diferenças já existentes entre Portugal e o Brasil, designadamente, na acentuação (uso dos acentos agudo ou circunflexo em certas palavras) . Não se trata, pois, de uma verdadeira uniformização."
Comento eu: a uniformização total da acentuação levaria à adopção das "medidas radicais" propostas em 1986 (a eliminação pura e simples da acentuação nas palavras esdrúxulas ou proparoxítonas) e que tão contestadas foram... Isto parece corresponder àquele ditado "ser preso por ter cão e ser preso por não ter".
Mas qual é o mal de haver algumas palavras com grafias duplas? Não será caso único. Isso também ocorre no espanhol: por exemplo, são admissíveis como igualmente válidas as grafias México e Méjico ('x' ou 'j'), harmonía e armonía (com e sem 'h'), subscripción e suscripción (com e sem 'b' que, para alguns, é mudo), subscripto e suscripto e suscrito (com e sem 'b' e/ou 'p'), psicología e sicología (com e sem 'p' que, por regra, é mudo), etc. E, em inglês, temos as habituais diferentes entre o Reino Unido e os EUA: labour e labor, centre e center, programme e program, etc., etc., etc.
Mas, as duplas grafias em espanhol e em inglês são excepções pontuais, como se pretende que sejam as que resultam do acordo ortográfico de 1990 no que à língua portuguesa diz respeito.
Diz Jorge Silva Marques: "O Brasil mantinha até agora o uso do trema que Portugal abandonou em 1945. As consequências deste abandono são visíveis, desde então, na alteração da pronúncia de certas palavras em Portugal. Haverá quem ainda leia a palavra "quiquenal" como "qüinqüenal"? Porém, nos últimos anos, embora "frequente" não suscite problemas, é comum ouvir "tranqilo", "eqestre" ou "ubiqidade".
Comento eu: nunca ouvi, em Portugal, ninguém dizer "trankilo", "ekestre" ou "ubikidade"... Quanto a "kuinkuenal", não me parece que essa seja a pronúncia corrente em Portugal para a palavra "quinquenal".
Eliminar a escrita do trema dos dois lados do Atlântico trará a vantagem de possibilitar que no Brasil se diga "sekuestrar" e em Portugal "sekestrar", mantendo-se a grafia comum "sequestrar". A palavra escrever-se-á da mesma maneira, salvaguardando-se a possibilidade de se conservarem as pequenas diferenças na pronúncia.
Diz Jorge Silva Marques: "O desaparecimento do "c" antes do "t" também terá consequências fonéticas, pois este abria a vogal que antecede, como em "adjectivo" ou em "facto". O seu desaparecimento no Brasil corresponde à evolução da pronúncia, dado que aí não se pronuncia o "c", mas o seu desaparecimento em Portugal irá provocar essa evolução, o que constitui o fenómeno oposto, e contraria o pressuposto de que a ortografia é que segue a evolução da língua e não o contrário."
Comento eu: você confunde as coisas. O que se pretende é eliminar apenas as consoantes que não se pronunciam. Na palavra "facto" o "c" é articulado em Portugal, logo seria mantido. Já em "adjectivo" seria eliminado.
Em 1945 algumas consoantes mudas foram mantidas na ortografia (e apenas algumas) com a argumentação de que, como você diz, a letra muda abria a vogal anterior átona. No entanto, não só isto nem sempre acontece (na pronúncia portuguesa, em "acção" a vogal inicial é aberta, mas em "actual" já é fechada), como inúmeras palavras de uso corrente têm vogais átonas abertas não assinaladas (exemplos: "padeiro", "corar", "caveira", "credor", "retaguarda", etc.), sem que isso cause qualquer perturbação.
Mas você parece querer culpar a ortografia pelas alterações da pronúncia em Portugal. Mas por que razão é que a palavra "síntese" que no Brasil é pronunciada como "sín-tê-zê", com as três sílabas claramente marcadas, em Portugal é, cada vez mais, "síntz", dito de uma só vez? Por que razão "telefonar" que no Brasil é "té-lé-fó-narr" é, principalmente em Lisboa, dito como "t'funar"? Ou seja, acho muito questionável querer relacionar as alterações fonéticas, nomeadamente em Portugal, com eventuais alterações ortográficas. Na verdade, as pessoas já falam duma forma e escrevem doutra.
Diz Jorge Silva Marques: "A tendência do Português é para evoluir em sentidos diferentes na Europa, em África e no Brasil. Apesar do oportunismo político e do terrorismo intelectual, parece-me completamente disparatado e inglório ir abdicando a pouco e pouco da nossa língua para tentar suster uma evolução ineluctável, e penso também que o nosso futuro no séc. XXI está na Europa, não em África nem na América Latina, tanto em termos culturais como económicos e políticos. É natural e muito benéfico manter laços com os outros países de expressão portuguesa, mas não me parece que este novo Acordo possa trazer benefícios a mais ninguém para além das editoras, a quem será oferecida a oportunidade de substituir todo o património literário português."
Comento eu: Você aceita passivamente e vê como inevitável a fragmentação do português, comparando-a à do latim. Tentar resistir será perder tempo e desperdiçar recursos. Mas, por que razão fenómeno idêntico não se passa com o inglês ou o espanhol, por exemplo? Você não estranha que o português seja a única língua de expressão universal a ter duas normas ortográficas diferentes e incompatíveis? Acha que é aceitável eternizarmos esta situação? Não acha que, tal como fazem os espanhóis, deveríamos tirar o máximo partido deste nosso legado histórico e cultural? Você acha que se a França, a Alemanha ou a Holanda, países que têm o seu presente e futuro na Europa, tivessem 200 milhões de pessoas em 4 continentes a falarem a sua língua não se iriam esforçar por maximizar este aspecto?
É "oportunismo político" e "terrorismo intelectual" chamar a atenção para estes factores?
Quanto a beneficiar as editoras, curiosamente estas são as que, por regra, mais receiam o acordo, com medo da concorrência das suas congéneres brasileiras...
Diz Jorge Silva Marques: "Para terminar, existe ainda outra questão que para mim assume maior importância que é a da sintaxe: o Acordo é apenas ortográfico, e não aborda evidentemente esta questão. Mas são quanto a mim as diferenças de sintaxe que, neste momento, mais afastam as "línguas portuguesas", e não está previsto nenhum "Acordo Sintático" entre os vários países. Desde o uso da forma verbal reflexa, passando pelo do "que", dos verbos auxiliares e de todas as preposições, ao dos diversos tempos verbais, as línguas portuguesas têm-se vindo a afastar cada vez mais. A televisão veicula todos os dias, aliás, estas formas de falar que têm vindo a contaminar a língua falada em Portugal. Parece-me que, em vez de um Acordo, o que teremos de fazer dentro em breve é comprar uma colecção de dicionários brasileiros...."
Comento eu: Como referi acima, o acordo de 1990 pretende também a elaboração de um vocabulário comum referente às terminologias científicas e técnicas. Acredito que, posto em prática, o acordo abra também as portas a uma maior aproximação entre as academias, os filólogos, os linguistas e os demais investigadores da língua dos dois lados do Atlântico. O facto de termos ortografias divergentes alimenta-nos (mesmo que seja apenas no nosso subconsciente) a ideia de que temos duas quase-línguas diferentes. Daí que admitamos como natural a existência de um manual de instruções de um electrodoméstico em português de Portugal e outro em português do Brasil, a edição de um livro em português de Portugal e outra em português do Brasil, um programa informático em português de Portugal e outro em português do Brasil, etc., etc., etc.
Ao passarmos a ter uma só grafia (apesar das variantes pontuais) tudo isso será questionado e terá de ser repensado. Já imaginou nas vantagens que isso poderá trazer nas acções de difusão e fortalecimento da língua portuguesa no mundo inteiro -- nos materiais pedagógicos, na formação e na certificação comum de proficiência em língua portuguesa para estrangeiros, na adopção do português como língua oficial em organismos internacionais, por exemplo, na ONU?
Estas questões transcendem, em muito, os domínios estritos da ortografia e da linguística e têm de ser vistos numa perspectiva estratégica do lugar de Portugal (e do Brasil) no mundo neste século XXI. Temos de tirar o máximo partido dos poucos pontos fortes que ainda temos. Desperdiçar a língua enquanto ferramenta de vantagem competitiva é, na minha opinião, um erro grave que as gerações vindouras não nos vão perdoar... Esta é a minha opinião sincera.
Olá! Sou estudante de Letras no estado de Minas Gerais, Brasil, e vejo com bons olhos a unificação da ortografia portuguesa.
Em minhas aulas de Lingüística, ouço de minha professora que falamos aqui uma língua que, há muito tempo, já é independente. Não concordo, pois tenho o costume de ouvir rádios portuguesas via internet e, sinceramente, reconheço o idioma que ouço como sendo o meu.
Se tivermos uma grafia única, nossa língua ganhará maior respeito internacional, passará ao mundo uma imagem de coesão que levará a uma credibilidade maior.
Não entendo porque há quem queira decretar a cisão da língua portuguesa a qualquer custo. Que vantagem há nisso?
Sejamos mais irmãos, unamo-nos pelo fortalecimento daquele que é um dos idiomas mais belos do mundo. Só temos a ganhar.
Só pra terminar, não acreditem que tudo o que se fala nas novelas é realmente falado pelo povo brasileiro. A televisão é dada a lançar modismos lingüísticos que não costumam durar. Eles não devem ser considerados como deturpações do português, pois não "pegam" por muito tempo.
Abração.
Abraços.
Pois, mas os brasileiros já se sabe como são: muito sencionalistas e essas tretas da fraternidade e não sei que mais como disse Márcus Vinícius Vieira Alves para tornar o idioma mais bonito e não sei quê. Eu acho a viarante brasileira agressiva onde se carrega nos 'r' e não se consegue pronunciar a letra 'l' no fim das palavras. Diferenças à parte, eu sou CONTRA o acordo e outro qualquer, seja ortográfico, fonético ou gramatical. Porquê? Muito simples. O português que em Portugal se fala é único. Faz parte da nossa indentidade nacional. É nosso. O Português que se fala em Portugal é de Portugal. Agora, o Brasil tem a sua versão porque quis separar-se e tornar o Português mais de acordo com o Brasil. Mas, isso para mim, não me interessa. O português que falo é único e não é igual ao do Brasil. Não venham com tretas. As diferenças estão à flor da pele. E mais: seria a parte de Portugal e de África a mudar mais do que a parte brasileira: O Brasil praticamente só tiram o acento em -eia e o trema. Nada mais. Enquanto nós temos que mudar para a versão deles: adatar-se, projeto, norte, sul, escrever os meses com minúcula. Isso nunca. Até porque em 'adaptar' eu pronuncio a letra 'p' e a letra 'c' em 'actualizar'. Acordo ortográfico nunca. Sou nacionalista? Não. Mas quando se trata de algo que altere o nosso património, uma pessoa tem que ser nacionalista. Se essa porcaria for adiante, então que se faça um referendo ao povo Português.
Ó Joel, que hostilidade é essa? Como eu disse acima, o que eu desejo é a união de povos que, quer você queira ou não, são irmãos. Para o seu conhecimento, nós também pronunciamos o "p" em "adaptar" no Brasil. Não haverá, portanto, modificação alguma nesse vocábulo. Você se diz, ainda, irritado com o nosso "r" e com nossa modificação do "l" em "u" quando tal letra aparece em fim de palavra. Já pensou se nós fôssemos nos revoltar contra o fato de vocês, portugueses, engolirem vorazmente as nossas vogais? Por aqui, por exemplo, dizemos praticamente todas as vogais de uma palavra, sendo elas tônicas ou não. Aí na sua linda terra, isso não acontece. Quer fazer um teste? Procure falar "SUPERSTIÇÃO". Notou como foi agressivo contra as vogais, devorando-as impiedosamente?
Fique bem claro que o idioma não pertence ao povo lusitano, mas a todos os povos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), incluindo as nações africanas. Para mim, é muito estranho omitir o trema, passando a escrever "linguiça" em vez de "lingüiça", mas estou disposto a adaptar-me à nova ortografia se isso for pelo bem do NOSSO português. Pelo visto, principalmente por sua maneira de escrever (não quero ofendê-lo de maneira alguma), você não é um profissional da área de línguas. Assim, é compreensível que não entenda os reais objetivos do acordo. Asseguro-lhe, contudo, de que só temos a ganhar. A soberania nacional de seu tão lindo país não está sendo afetada. O Brasil é do tamanho de um continente. Temos cerca de 180.000.000 de falantes, cada um carregando em si o poder de manter vivo o idioma de Camões. Não pense que o nosso povo está mendigando sua cooperação. Estamos, sim, estendendo-lhes um braço forte de apoio. Com o acordo, escritores portugueses terão suas obras muito mais bem aceitas por nosso público consumidor, sem que sejam necessárias adaptações ortográficas. O que vocês têm a perder? Sabe qual é a maior das virtudes humanas? A HUMILDADE. Experimente-a. Um abraço!
Meu caro, acho que para pereceber este assunto, não é preciso ser doutourado em letras.
Diz que só temos a ganhar com este acordo. Sim, mas só vocês e as vossas editoras, porque as nossas editoras, por incrível que pareça, não estão nada interessadas nisso.
O que tem Portugal e o seu povo a ganhar com isso? Eu não vejo nada...
Sabe por quantas novas terminologias já passamos aqui em Portugal? Sabe por quantas mudanças gramaticais já passamos em Portugal? Já viu o que é mais uma nova alteração para os nossos estudantes, para as nossas crianças, os nossos livros e assim por adiante?
Mais, você disse que a língua não pertence ao povo lusitano. Eu disse que o Português de Portugal é de Portugal. E mais ainda, nunca falei na soberania de nenhum país, mas sim no património que o Português de Portugal representa para nós e pode crer que é mesmo um lindo país.
A minha maneira de escrever... Bem, isso não tem nada a ver consigo. Já leu algum livro de José Saramago? Tire as suas conclusões.
E para concluir, eu não admito que me dêm lições de moral. A humildade é para aqueles que acham que a devem ter e sobre este assunto tenho o direito de dizer o que bem achar com ou sem humildade.
Em relação aos povos irmãos... bem... o que temos de semelhante, além de falar o Português? Os tempos mundam e já não ha comparações entre o Brasil e Portugal: somos diferentes.
Quero receber na integra a proposta de acordo ortográfico de 1986 dos países lusofonos.
Trabalho com a disciplina Língua Portuguesa II sobre ortografia portuguesa e não encontreio texto original.
Caro Joel Reis,
Acho que o problema aqui é que se misturam as coisas. Primeiro, o acordo é apenas ortográfico, ou seja, só se altera a forma de escrita de alguma palavras. No caso de Portugal, serão cerca de 1,6% dos vocábulos. Como é evidente, não se altera a forma de pronunciar as palavras, nem a gramática da língua.
Para que fique claro, na reforma proposta em 1990, só serão omitidas as consoantes que não se pronunciam. Em 'adaptar' pronuncia-se o 'p', logo ele será mantido; em 'adoptar' não se pronuncia, logo será eliminado; em 'facto' pronuncia-se o 'c' em Portugal (enquanto no Brasil é 'fato'), logo o 'c' continuará a ser escrito em Portugal. Trata-se de uma das palavras que passará a ter escrita dupla, diferente entre Portugal e o Brasil. Serão poucas, mas continuarão a existir diferenças pontuais entre as duas variantes.
Talvez seja útil, também, lembrar que, ao longo dos tempos, a ortografia foi sendo alterada. Basta lembrar que, até 1910, o que agora é 'farmácia', 'assinatura', 'escritório' 'fleuma' e 'asma' se escrevia como 'pharmacia', 'assignatura', 'escriptorio', 'phleugma' e 'asthma'. E esta primeira grande simplificação ortográfica não foi imposta pelo Brasil, mas foi uma iniciativa do primeiro governo da República Portuguesa que, para tal, nem se deu ao trabalho de consultar os brasileiros. Resolvemos mudar a forma de escrita da língua do lado de cá, esquecendo-nos que, do lado de lá, também se falava português! E assim começou o 'cisma ortográfico' que perdura até hoje...
Também será conveniente recordar que em 1971, o Brasil empreendeu uma profunda alteração ortográfica que levou à eliminação dos acentos gráficos responsáveis por 70% das divergências entre as duas ortografias oficiais. Em consequência, no Brasil deixou de se escrever 'êle', 'portuguêses', 'côr', 'pôrto', 'flôr', 'fôrma', etc., etc., etc., aproximando a escrita da forma lusitana.
Isto tudo para contrariar a ideia infundada de alguns portugueses de que são os brasileiros que forçam a mudança da língua. Que são eles que pressionam a separação. Não se pode falar por toda a gente, é claro, mas da parte das autoridades da língua no Brasil, parece-me evidente que tem havido um grande empenho na unidade da língua portuguesa.
A questão das consoantes mudas – os tais 'p' e 'c' que já não pronunciamos, mas que continuamos a escrever – é o tema mais sensível para muitos portugueses. O 'c' de 'director' ou de 'didáctico'; o 'p' de 'óptimo' ou de 'peremptório' parecem-lhes património inalienável. Abdicar deles seria como vender o Mosteiro da Batalha ou o túmulo de Camões! Seria um acto de alta traição!
No entanto, convém ter presente que, mesmo em Portugal, já só são mantidas algumas (poucas) consoantes mudas. A grande maioria das consoantes mudas da tradicional grafia etimológica já não existe na ortografia actual da língua portuguesa. Dando exemplos: quer em Portugal, quer no Brasil, já não se escreve 'construcção', 'práctica', 'escripta', 'assumpção' e 'assignatura', mas sim 'construção', 'prática', 'escrita', 'assunção' e 'assinatura'.
Na altura da adopção da ortografia que vigora em Portugal (em 1945), a argumentação usada para a manutenção de alguns 'c' e 'p' foi a de que a letra muda indicava que era aberta a vogal anterior átona. No entanto, não só isto nem sempre acontece (na pronúncia portuguesa, em 'actor' a vogal inicial é, de facto, aberta, mas em 'actual' já é fechada), como inúmeras palavras de uso corrente têm vogais átonas abertas não assinaladas (exemplos: 'padeiro', 'corar', 'caveira', 'credor', 'retaguarda', etc.), sem que isso cause qualquer perturbação.
Assim sendo, fará algum sentido manter uma meia dúzia destas letras mortas? Porquê? Se se escreve 'prática' (e já não 'práctica'), porquê continuar a escrever 'didáctica'? Se se escreve 'escritório' (e já não 'escriptório'), porquê continuar a escrever 'peremptório'? Se se escreve 'retaguarda', fará sentido manter o 'c' em 'recta' ou em 'rectângulo'. Se se escreve 'inflação', fará sentido manter o 'c' mudo em 'acção'? Etc., etc., etc.
Percebe que a manutenção destas letrinhas é difícil de sustentar?
Agora deixe-me dizer-lhe uma coisa: eu acho sinceramente que se não existisse Brasil, já há muito tínhamos abolido as consoantes mudas em Portugal. Não o fazemos, na minha opinião, por birra, porque queremos marcar a nossa diferença face aos brasileiros, porque queremos parecer mais correctos, mais fiéis à origem das palavras, mais 'donos da língua'.
Na minha opinião este sentimento tão português do 'orgulhosamente sós' é terrível para nós próprios. Em certos momentos, parecemos preferir a estreiteza do nosso cantinho à largueza do universo. Por favor não se esqueça de que o português é a terceira língua europeia mais falada do mundo. Estaria disposto a abrir mão disto apenas para poder continuar a escrever meia dúzia de letras mortas, autênticos monumentos da nossa obstinação!?
Um abraço, Manuel de Sousa
Prezado Manuel de Sousa, concordamos plenamente consigo e admiramos muitíssimo o modo como você expôs suas idéias. Aqui no Brasil, reina a vontade de que nossa língua seja cada vez mais importante no cenário internacional. Para isso, uma unificação ortográfica é mesmo imprescindível. Parabéns por sua elegância ao escrever, evitando afetações como as utilizadas por aqueles que querem isolar-se lingüisticamente do mundo.
Eu não quero acrescentar muito mais sobre este assunto. Apenas quero dizer que cada um tem a sua opinião e cada um terá que a respeitar assim como eu respeito a dos outros. Se os países querem mais projecção da língua portuguesa, então que nuem o Português muito mais além da ortografia.
"(...)evitando afetações como as utilizadas por aqueles que querem isolar-se lingüisticamente do mundo." Eu vou fazer de conta que não li isso. Eu posso não saber escrever muito bem português mas este acordo irá afectar todas as pessoas que falam português quer sejam estudantes ou professores.
Concluindo: Eu estou contra o Acordo e, se vier a ser realmente aprovado, eu não irei aplicá-lo nos meus textos.
"Se os países querem mais projecção da língua portuguesa, então que nuem o Português muito mais além da ortografia" Peço desculpa pela construção desta frase. Passo a corrigir: "Se os países querem mais projecção da língua portuguesa, então que se faça um acordo que engloba muito mais que a ortografia."
Eu acho essa discussão tão estranha! Será que alguém realmente encontra alguma dificuldade em reconhecer uma palavra escrita de uma forma ou de outra? Alguém realmente acha que é a ortografia que é uma barreira para a compreensão mútua? Por que jamais se vê no Brasil filmes e programas de televisão, não se compram livros e revistas ou não se ouve nada de música de Portugal? Reserva de mercado? Preconceito? Nacionalismo? Complô? Acordem! É o uso que se faz das palavras, o vocabulário, o estilo e a pronúncia que nos separam. Nem que se faça um esforço enorme e sincero um desses dois grandes grupos (PT e BR) seria capaz de produzir material escrito ou falado que não pareça estranho ao outro. Alguém tem a ingenuidade de acreditar que isso vá mudar com alterações cosméticas na ortografia? É por decreto que vai acabar o estranhamento e resistência mútuos que ocorre ao se ler em um manual "ecrã" e "ficheiro" em vez de "monitor" e "arquivo"? As diferenças de estilo são até capazes de divertir.
Pensar que diferenças ortográficas freiam a divulgação ou dificultam o aprendizado do português por estrangeiros? Parem de delirar! A língua portuguesa já teve grande importância no mundo, já chegou a ser uma lingua franca na época das conquistas, mas esse tempo de influência global já passou! Nada no horizonte sugere uma volta dessa relevância. Não importa se tem mais de 200 milhões de falantes no mundo, se são de um país periférico da Europa e outro com grande população mas pouca importância econômica no mundo. O hindi também tem centenas de milhões de falantes e nem por isso espera-se que tenha uma importância relevante fora de suas fronteiras. Gostemos ou não (certamente não), o espanhol é que se estabelece como segunda lingua franca no mundo, depois do inglês.
Mas apesar de todas essas diferenças, é a mesma língua sim! Esse mesmo "isolamento" ocorre entre o Quebec e a França e nem por isso deixam de se considerar todos parte da comunidade francófona.
É mentira quem diz que a língua portuguesa pode estar estagnada e não se difunde, o português é, juntamente com o espanhol, a língua ocidental em maior crescimento. Assim, a estagnação do português não deverá ser desculpa para não haver um acordo, simplesmente porque a língua cresce, e se não servir a muitos num panorama interlinguístico, quanto muito que sirva num panorama lusófono, o português DEVE crescer nos PALOP, em Timor-Leste, Macau e demais.
Quem disse que o acordo virá traumatizar as crianças e jovens deveria saber que isso não é desculpa. Os pais de todos os jovens passaram por isso nos anos 70 e conseguiram lidar com o caso, já que também não tinham muito para decorar. O mesmo aconteceu com avós e bisavós (e os segundos já nem presentes devem estar, pelo que não hão-de se importar com a nova reforma).
Uma regulação de sintaxe não é, a meu ver, necessária, as regras já existem, o português formal do Brasil é praticamente idêntico ao português de Portugal, as regras estão consolidadas, os Brasileiros só têm é de aprender a falar melhor, ou quanto muito, só têm de saber como escrever, assim como nós em Portugal o fazemos quando diferenciamos o que escrevemos num texto num teste universitário de uma oralidade quando falamos com os nossos amigos.
Eu sou a favor de um acordo ortográfico da língua portuguesa, simplesmente não este...(é um bocado o género de opinião da rábula "Gato Fedorento" do Marcelo Rebelo de Sousa sobre o Aborto, lol).
Simplesmente porque gostaria de unificar as duas ortografias para que haja uma língua portuguesa mais consolidada oficialmente, e não haja quem não saiba que registo adoptar (caso de Timor-Leste)...mas não gostaria de unificar a língua numa ortografia que vai continuar desencontrada e numa ortografia que me parece ficar mais burra (se é para unificar, unifiquemos a sério, e não pseudo-unifiquemos).
Apoio a existência de uma qualquer marca nos casos em que se distingue a pronunciação "gue" e güe", etc. Vamos lá deixá-la, ou readoptá-la, e toca de reensinar ao pessoal aqui em Portugal como é que se pronuncia "qüinqüenal" ou "liqüidificador"; (o mesmo com "saüdade", "vaïdade" ou "constituïção", que muita gente nem imagina que são estas as suas pronúncias correctas).
Poder-se-ia adoptar os pares "qv" e "gv" para estipular a ausência do [w] "qve", "qvi", "gve" e "gvi" passando a escrever-se: "qvestão", "qvintal", "gverra" e "gvincho" ao invés de "questão", "quintal", "guerra" e "guincho". A partir daí o "u" ler-se-ia sempre: "cinquenta", "equidistante", "aguentar" e "linguiça".
E quem disse que a única solução para a unificação de "Antónios" e "Antônios" é passar a chamar-se o pessoal de [Antonío] com a escrita "Antonio" só pode ser fraco de visão, porque existem todas as hipóteses do mundo para que mesmo estas palavras se unifiquem, é, duas pequenas letras poderiam unir tudo isto - "Æ" e "Œ":
"ténue" e "tênue" passariam para "tænue", assim, a ortografia é a mesma, e preservar-se-iam as duas versões sonoras.
"António" e "Antônio" passariam para "Antœnio"...e muitos outros: "Amazœnia", "brœmio", "econœmico", "œnibus", "ingænuo", "gæmeo", "sæmula", "cænica",...ao invés de "Amazó/ônia", "bró/ômio", "econó/ômico", "ó/ônibus", "ingé/ênuo", "gé/êmeo", "sé/êmula", "cé/ênica",...
O mesmo resultaria para mais 3 pontos onde a ortografia diverge:
"ideia" e "idéia" passariam para "idæia";
"câmara" e "câmera" passariam para "câmæra";
"controlo" e "controle" passariam para "controlœ", e "equipa" e "equipe" passariam para "equipæ".
Sempre com o mesmo conceito, unificação ortográfica onde cada país desenvolve a sua pronúncia para a letra (conservando o sotaque de cada sítio) como já acontece com praticamente todas as vogais. :)
Quanto aos acentos graves em palavras acabadas em -mente e -zinho só deveriam perdurar, fazem sentido e não incomodam ninguém, até ajudaria muito boa gente a deixar-se de espetar com acentos agudos em palavras onde não deve, assim ficaria a saber que se é para existir acento, seria um acento grave, ex.: "pèzinho" e não "pézinho".
àèìòù estão para áéíóú, assim como āēō estariam para âêô (uma reaproximação com o latim), funcionando da mesma forma: "côdea" - "cōdeazinha", "dinâmica" - "dināmicamente", e "lêndea" - "lēndeazinha".
Deixar de grafar o acento circunflexo em palavras como "lêem" ou "jibóia" parece-me irrelevante, uma vez que não são estas as palavras que diferem, ou seja, este ponto do acordo parece-me inútil, não só se mexe em algo que não prejudica nem chateia ninguém, como se tiram sinais óbvios de pronúnica, algo que também não ajuda na clareza de pronúncia quando estrangeiros aprenderem a língua por exemplo. Quanto muito até daria ênfase a essas sonoridades, dotando as palavras "mui", "muito", "muita", "muitos" e "muitas" de til, passando para "mũi", "mũito", "mũita" e "mũitas".
Assim como as palavras "connosco", "comummente" e "Mian/mar" se poderiam escrever "cõnosco", "comũmente" e "Miãmar".
As palavras que no Brasil se escrevem sem "h" só podem ter advindo de falta de conhecimento/educação, assim, nada mais do que educar a população para uma ortografia correcta: "húmido" e "herva" é o correcto.
As letras "k", "w" e "y" não fazem sentido no nosso alfabeto, só vão ser usadas em estrangeirismos. Ora, então porque não adoptar também as letras "ø" e "å"? Ao contrário do que uita gente possa pensar, são letras como quaisquer outras nos alfabetos de algumas línguas escandinavas, e usamo-las tanto quanto um "k" ou um "w", quer seja em "William Shakespeare" ou "ångstrom". Deixe-se lá estas todas de fora, e concentremo-nos no que a nossa língua realmente precisa.
Quanto aos "p" e aos "c", esse tema também tão delicado, concordo que se deixem os que se pronunciam: "ceptro" e "caracter"; concordo que se tirem os que não fazem falta: "atriz" e "ótimo"; proporia que se deixe uma marca dos que modificam vogais: "ele•trificado" e "rece•ção"; e proporia que se tirem os que não fazem falta mas dobrar a consoante para diferenciar de uma palavra já existente: "cacto" passa a "catto" para diferenciar de "cato" (verbo catar).
Só tento fazer ver que há muitos caminhos possíveis a tomar para se chegar a uma verdadeira união, porque nota-se que quem se envolveu nela não se empenhou nem teve visão.
Proponho o novo alfabeto, e sim, adiciono algumas letras, mas não as que alguns querem -
ABCDEÆFGHIJÇLMNOPQ•RSTUVŒXZ
(e sim, vamos lá oficializar o cê de cedilha, para quê termos medo dele?)
E para os que dizem "qual o mal de haver algumas palavras que divirjam entre si?", pois bem, a esses lhes digo...qual o sentido de todo este acordo então? Até parece que é muito difícil compreender as duas versões ortográficas do português. Escolho a unificação porque também me chateia ver coisas como "Antônio" e "húmido", assim como a um brasileiro lhe deve chatear ver coisas como "linguiça" e "ideia".
Um grande abraço, e que este texto chegue aos presidentes da Academia Brasileira de Letras, e à Academia de Ciências de Lisboa. Hehehê
;)
Definitivamente NÃO!
Julgo que os motivos já estão bem expostos...
Tenho visto dizer-se que em Portugal não se pronunciam algumas vogais, discordo totalmente! Lá porque alguns portugueses não saibam pronunciar as palavras, não podemos generalizar. Deram o exemplo de Superstição, eu leio as sílabas todas!
O Brasil poderia muito bem criar uma nova língua, se criaram com o Mirandês, não vejo porque não criam também o Brasileiro, as diferenças entre as línguas são imensas, e Portugal e o Brasil não são irmãos, a relação assemelha-se mais a pai e filho hehehehe
Aqueles que não sabem escrever estão de acordo.
Os que valorizam a riqueza da língua portuguesa (no seu original, sem facadas) não estão.
Ponto final, está tudo dito.
Eu, sinceramente, terei VERGONHA DESTE PAÍS quando a minha filha trouxer da escola um papel, onde, a marcador vermelho, estarão sinalizadas que no "puro antes" estavam correctas, e agora estarão erradas.
Ah, e, ao ler a "nova grafia correcta", nao soará a português.
Deixem-me ler o meu BI.. sim, a minha nacionalidade não mudou.
Nem irá mudar. Morrerei com a mesma.
Toda essa preocupação para que se, em 99,99% dos textos atualmente, o que importa é a informação? Ninguém se lembrou da leitura dinâmica ou dinámica, não foi? Em que o processo se abstrai da mecânica da fala(também há a leitura na velocidade da luz). Se leio dinamicamente um texto sobre taquicardia e me deparo com "coracao" ou "cor ão" ou "coraçaõ", não tenho dúvida do que se trata. Vai que no texto eu encontro "contactar". Por que me preocupar se é português ou angolano ou brasileiro? As regras atuais são baseadas na fala, como é evidenciado no Brasil pelo último exemplo - contactar e contatar são possíveis, mas se usa contactar, enquanto contacto é considerado lusitanismo, ou não é mais??
São só regras. Vejam, nós todos discutimos aqui por linhas a fio e pouca informação trocamos.
Como, por exemplo, você sabia que Aspartame é um veneno?
Quem tem essas idéias brilhantes para melhorar nossas vidas? Os políticos. Os mesmos que se julgam sabedores do que é melhor para nossa saúde, educação e o que há de mais. Por que você se alista para os militares? Por que você escreve ideia ao invés de idéia? Porque eles assim querem. Concordo com cidadão que escreveu "se for aprovada a reforma, não mudarei minha forma de escrever". Eu, por exemplo, não escrevo, portanto não me incomodo muito com as regras. Mas compreendo perfeitamente a atitude do Saramago, que pede a manutenção da ortografia em edições brasileiras de suas obras, para nossa sorte.
Depois eu escrevo sobre a expansão do espanhol/estagnação do português que agora já me encheu o saco.
eu ja assinei uma peticao!!!asssinei tambem porfavor!!!Nao deixem matar aquilo que mais amo neste mundo a minha identidade!!!!temos que protestar na rua!!!!!!!
Digo o mesmo que :
annacaracol
Definitivamente NÃO!
Julgo que os motivos já estão bem expostos...
E gostaria de saber se ainda existe algum movimento contra e se sim qual o contacto.
A verdade é que Portugal agora está a se tornar uma colônia Brasileira.
O BRIC (Brasil, Índia, China e Rússia) é uma designada para definir um grupo de nova potencias mundiais.
Portugueses e portuguesas, a verdade dói, mas tem que ser dita e aceita, quem manda agora no mundo Lusófono é o Brasil.
Portugal uma nova colônia Brasileira, bem como os países da América do Sul vizinhos do Brasil que estão sendo sofrendo uma grande influencia Brasileira.
Vejam o lado bom, alguns países sul americanos estão adotando o Português como segunda língua e ensino obrigatório nas escolas. Até alguns países do Oriente Médio estão a ensinar a Língua Portuguesa nas Universidades.
Ou Portugal faz o acordo logo ou o Portugues de Portgual vai sumir engolido pela globalização e Portugês Brasileiro, ou melhor, o idioma Brasileiro vai ser dominante como o espanhol e ingles.
Atenção Portugueses!!!
Diz um ditado popular:" Se não pode com eles, junte-se a eles"...
Então Portugueses ou vocês unam-se ao Brasil, ou seu idioma está com os dias contados e ficará na história e nas lembranças no mundo. O maior engole o menor e vocês se forem inteligentes e espertos deviam entender que não deve-se dar "murro em ponta de faca" e creio que seu governo já enxergou isto, mas muita gente não... Já li muitos foruns e opiniões diversas, confesso que a grande maioria dos comentários são contra...
Deixem de ser arrogantes e puristas... sejam humildes e aceitem a realidade. A criatura dominou o criador...
Comparem Brasil e Portugal e vejam que em todos sentidos Portugal está a anos luz atrás do Brasil...
Abram os olhos e vejam a realidade...
Por mim, voltava-se à ortografia de caráter etimológico pré-1911 e pronto. Nunca se poderá incluir todos os dialetos, todos os regionalismos, todos os registros, numa escrita uniforme de caráter fonético. É impossível, é inútil, e os únicos a lucrar são as editoras (não quero que soe como uma teoria de conspiração). Quando escrevo, importa-me só que o leitor entenda o significado das palavras, e não que possa reproduzir a minha pronúncia exata dessas palavras. Que interessa ao leitor a forma de falar que a senhora minha mãe me ensinou? Considere uma palavra qualquer; a gente de cá a diz de tal jeito; a gente de lá, doutro jeito; nossos avós a diziam dum jeito; nossos netos a dirão doutro. Não importa o uso corrente, mas sim que o peso de séculos de uso e origens longínquas se façam sentir ao leitor e ao escritor da palavra.