De vez em quando, ao passar a pé pelo Estádio do Dragão em dias de jogo, espreitava as cores e o movimento que se vê das aberturas arquitectónicas laterais do estádio e que, qual exaustor de uma pastelaria apontado para a rua, deixam sair também o som do público.
Então tinha comentado com alguns amigos meus que gostaria de ir ver um jogo no estádio. Isto foi-lhes particularmente surpreendente, visto que é famoso o meu desinteresse pelo futebol.
Na Quarta-feira à noite o Ricardo Jorge deu-me a minha primeira prenda de anos, e levou-me a ir ver o meu primeiro jogo num estádio: o F.C. Porto vs. Inter de Milão.
Não tenho nada contra os meus amigos milaneses, mas achei que a torcer por uma equipa, que seria aquela que tem o nome da cidade onde nasci. E ainda por cima há uma claque que são os «Superdragões da Sé». E a Sé é mesmo a freguesia que figura nas costas do meu BI e no meu passaporte, onde diz «local de nascimento». Mas agora que resido na freguesia Bonfim, por critérios geográficos também é o Estádio do Dragão a sede do clube que me é mais próximo. Por isso, e até parece que isto tudo é para me desculpar, achei que a escolha pela equipa a torcer era óbvia. Para completar a experiência, levei ao pescoço um cachecol do F. C. Porto emprestado.
Sentei-me na fila 28, da entrada 40, qualquer coisa 46, porta 11. O campo visto de lá de cima é como num jogo de computador dos anos 80: os jogadores não têm nariz, olhos ou boca. Do Figo e do Vítor Baía, que eram os únicos nomes de jogadores que reconhecia, só dava para ver a cor da cara e do cabelo, como se estivessem pixelizados num monitor por uma placa gráfica VGA de 1991. Dali daquele lugar até os bombeiros a entrar em campo com a maca parecem uma rotina de um jogo de um Amiga.
O estádio é servido por imensos comissários. Os mais abundantes são os de colete amarelo. Estão em todo o lado, para ajudar e vigiar os adeptos. Nas entradas, a controlar as pessoas que entram. Nos acessos às portas também. Em redor do campo, há vários comissários sentados de costas voltadas para o campo, a vigiar as bancadas. Pelas escadas acima, vários comissários de colete amarelo. À volta das claques, ainda mais comissários, em densidade superior.
Depois há aqueles com colete cinzento. São os apanha-bolas. Assim que a bola sai da linha do campo, eis que um desses apanha-bolas atira uma nova para dentro do campo e outro vai buscar a que saiu. Só que se a bola vai parar ao público, um comissário de colete amarelo vai lá pedi-la de volta! Se há tantas bolas, porque não deixam os felizardos da bancada que apanhem uma ficar com ela?
Há ainda uns terceiros com colete verde. Esses não são vistos pelos telespectadores pois a sua função é, durante os quinze minutos de intervalo do jogo, avaliar e reparar o estado do relvado.
Mas é na bancada, e não no relvado, que a emoção acontece. E o que acontece, acontece mesmo. Num repente passa-se de um extremo emocional a outro. Em poucos minutos, as bancadas passam por um sequência emocional que pode ser assim: bater palmas ao ritmo dos cânticos das claques, depois um assobiar tremendo como se estivéssemos no interior de uma chaleira com 500 metros de diâmetro cheia de água a ferver, onde as bolhas são as mãos dos adeptos exigindo um assinalar de falta agitando as mãos com o polegar no indicador como se estivessem a segurar eles próprios o cartão, e logo a seguir um crescente de palavras de ordem quando um jogador nosso se aproxima da grande área deles, seguido de um gigantesco «Ai!» de dor como se cada um dos adeptos fosse uma mãe que vê ali à sua frente o seu filho ser decapitado quando na verdade o que aconteceu foi a bola ter ido à trave da baliza, depois um grande entoar de «Puâaaaaarto», seguido de silêncio que cai quando se constata que a bola está há demasiado tempo na nossa metade do campo, palmas para uma boa defesa do Vítor Baía, depois o árbitro assinala-nos a nós a falta e aí os assobios são os mesmos dos de há bocado mas o gesto da mão é como se de um papa que estivesse a abençoar o campo, só que mesmo muito zangado, e quando é golo, bem, quando é golo os adeptos rebentam como grãos de milho a passar para o estado pipoca, levantam-se todos das cadeiras e ficam com três metros de altura de felicidade. As emoções passam assim de um estado a outro, num período de tempo inferior ao que um automóvel leva para disparar os airbags em caso de colisão.
Se por um lado temos o som dos adeptos como um todo, que se reflecte por toda a bancada dando aquele som de fundo de búzio característico ao ambiente sonoro de um estádio, a proximidade com os adeptos sentados ao nosso lado permite-nos ouvir o que eles estão a dizer com mais detalhe do que realmente queremos. São os «treinadores de bancada». Dão instruções aos jogadores que não os ouvem, «sobe para cima», «mete para dentro», «ai o gajo não vê nada», «anda lá, passa lá a bola, ó!», «corre, vai lá buscá-la». Mas também partilham a suas análises e estados de espírito, «é assim, é assim mesmo que se faz», «ai vai-me agora mudar o gajo», «olhaolhaolhaolhaolha... olha». Mas o que até me espanta é que, sendo esta a cidade capital da língua afiada, eram raros os palavrões que se ouviam. Na verdade, os insultos mais comuns que ouvi foram «palhaço!» e «bailarina!». Isto talvez porque aquelas artes pertencem a outro tipo de espectáculo.
Quanto ao jogo propriamente em si, valeu a pena torcer pelo Futebol Clube do Porto. Graças também a mim, ganharam por 2-0 ao Internazionale di Milano. Mas se sobre o jogo quiserem um comentário técnico, vão ter de ir procurar a outro lado porque há gente que sobre isso percebe mais do que eu.



Parabéns.
Ficaste entusiasmado, hem?
Ah, e bela foto aí...
Brilhante! Adorei a crónica e ri-me q.b. ;-)