Nas últimas semanas vi vários filmes seguidos sobre o problema do nazismo:
Resistentes,
O Leitor,
O Rapaz do Pijama às Riscas,
Valquíria. Também
A Onda, e
O Complexo Baader Meinhof, ainda que estes o abordem duma forma indirecta.
A mim, como julgo que a outros espectadores eticamente sãos, durante a projecção destes filmes não me parece possível que possamos deixar de pensar cada um, uma mesma coisa:
Mas como raio isto foi possível acontecer?E às tantas, de tanto ver o mesmo problema relatado no ecrã filme após filme, ainda que a homenagem à memória histórica seja justificação bastante, quase que se me esvanecia a pertinência social de tantos tratamentos. Afinal, como dizia uma personagem do filme A Onda, «hoje somos demasiado esclarecidos para que isto volte a acontecer».
Já agora, quase todos estes filmes foram produzidos por produtoras europeias, o que pode indiciar uma certa preocupação velho-continental em trazer à discussão e à renovada consideração dos espectadores toda a problemática da instauração de ditaduras e das consequências éticas da política desumanizada que ainda não tenha sido totalmente resolvida. E de repente ocorreu-me que tal é mais verdade do que até ali pensava.
Em tão pouco tempo, de ver tantos filmes sobre um mesmo tema, ocorreu-me que se calhar
andamos todos a ver o problema duma forma demasiado estreita: não é apenas das ditaduras e do discurso de ódio que devemos nos atentar e precaver para que tal não volte a acontecer.
Sob o risco de estar a ser simplista, posso crer que na Alemanha de Hitler houvesse muita gente que desconhecesse o genocídio, mas outros tantos estariam conscientes e informados de que havia toda uma população que estava a ser vítima de tratamento no mínimo desumano. Só que pelo efeito da desresponsabilização social, mais um ignorar activo sobre uma questão que sabiam existir mas que desagradava pensar, ou que na qual receavam envolver-se, tantos outros foram autores de actos contra a humanidade por omissão.
Quando o caro leitor se encontra a ver um destes filmes sobre o período nazi, talvez pense que vivesse naquele tempo e naquele lugar, que muito certamente ajudaria os judeus e as causas que visassem destronar o regime nazi. Com toda aquela música e colocando-se o espectador no lugar do herói do filme, não imagina para si outro papel que não o salvador da humanidade, contra todo um crime, ali sintetizado no ecrã, tão horrendo quão óbvio.
Ou então se o caro leitor tivesse sido diplomata, imagina quando vê um dos documentários respectivos na televisão, conseguiria até superar facilmente os feitos dum
Oskar Schindler ou um
Aristides de Sousa Mendes.
Sabendo o que sabemos hoje, nós no passado teríamos sido concerteza todos uns salvadores da condição humana, todos uns grandes lutadores contra crimes contra a humanidade.
Só que isto é uma grande treta, porque neste preciso momento estamos a ser os mesmos nazis que aqueles da década de 40 do século XX.
Todos. Neste preciso momento.
Acaso o leitor desconhece que
neste preciso momento há toda uma parte da humanidade a morrer uma morte indigna?
O genocídio dos nossos dias é a fome que mata selectivamente todos aqueles que carecem dos recursos económicos para se sustentarem a si mesmos. Não sabia?
Sobretudo nos países pobres, mas também dentre a população dos países mais desenvolvidos,
estamos a deixar que morram aqueles que sabemos que estão a morrer.
Não por desconhecimento, não porque não possamos fazer nada. Estamos a deixá-los morrer por indiferença.
Ao contrário de tantos alemães, não temos a recear as represálias duma tabuleta
Judenfreund nazi; não podemos é
não ser amigos de quem morre sem culpa. Ninguém nos fará mal por fazermos alguma coisa por ajudar. Não temos desculpa nenhuma se não o fizermos.
Do fazer, o que poderíamos fazer? Acho que a maior alavancagem para a resolução do problema seria fazer o que estamos a fazer hoje com o problema do nazismo: alertar para o problema, recordá-lo de seguida, insistir nos vários tratamentos possíveis nos grandes veículos de comunicação de artes e ideias - até que cada um dos espectadores do fluxo de comunicação actual, perante o problema da morte pela fome, traga para si o problema, faça dele o seu, se inconforme, se proponha como agente de mudança.
Recordo-me agora que, enquanto aluno de Cinema na Escola Superior Artística do Porto, tive como professor de Análise de Filmes o professor Melo Ferreira, que nas suas aulas estimulava periodicamente debates entre os alunos sobre filmes normalmente fora do circuito comercial. Mas quando os debates se tornavam intensos em volta de questões estéticas e filosóficas do cinema, o professor Melo Ferreira interrompia tudo - e fez isto mais do que uma vez - com um «sim, estas questões todas são muito interessantes, mas lembrem-se que enquanto vocês discutem arte do cinema, há pessoas a morrer de fome». E calávamo-nos todos. Não tanto em consideração pelo assunto tão sério e trazido tão subitamente, mas pelo brilhante relativizar de dois temas que naquela escola artística poderiam igualmente ali mesmo servir de mote para um novo debate do ponto de vista puramente ideológico e abstracto. Mesmo assim ninguém dizia nada, para não arriscar um cliché que nos desvalorizasse o figuraço de artista. Às vezes, nem mesmo à frente dos olhos nos damos conta que as questões que realmente importam são mesmo aquilo que parecem.
Mas importa insistir. Se interrompermos o fluir de entretenimento repetitivo e se convidarmos ao pensar sobre este tema as vezes que forem precisas, eventualmente cristalizar-se-á na nossa sociedade uma nova superfície de emergência que orientará então a inteligência e a imaginação de todos para a resolução do problema da fome dos outros.
Nem eu nem ninguém, creio, temos a solução derradeira para a fome. Mas julgo que a incubação por ideias novas e eficientes por parte de cada um dos indivíduos que podem pensar sobre estas questões só se dará início quando se perguntarem, talvez pela primeira vez mesmo a sério:
Mas como raio foi possível termos deixado isto acontecer?
Leva-me contigo
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